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Humanização, tarefa desumana.


A definição virtuosa sobre humanizar é aquela que visa primariamente a obter de cada ser social a sua parcela certa de cidadania, a que transforma esforço pessoal em substância coletiva concreta. O ser social humanizado é, antes de qualquer coisa, um corpo cujos próximos são as células e cujos órgãos são os ambientes e fatores antropológicos que o cercam. Disso decorre que o conjunto de seres sociais pode também nos remeter à poética ideia de um círculo de pessoas de mãos dadas. Humanizar-se, nesse caso, nada mais é do que estender a mão ao próximo, ouvi-lo como se fosse a nossa própria fala interior e ajudá-lo como fosse para nós mesmos. É fazer refletir naquele que nos está à frente a nossa própria imagem distorcida pela dificuldade que o acomete.

A Humanização, portanto, tem início na própria consciência de que somos seres interativos, cujas angústias e felicidades dependem de alguma forma e em alguma parcela do ambiente que habitamos, ou seja: Não é a simples atitude solidária que nos torna humanizados, mas sim, a atividade comunitária. Trata-se, pois, de um complexo paradoxo em que pensar coletivamente e agir individualmente são sempre muito bem ponderados.

Por outro lado, nossa incapacidade de agir em prol da coletividade sempre nos impôs a mítica ideia de que de nada adianta mudarmos se o nosso próximo não fará o mesmo. Entendemos, de certa forma obscura, que o coletivo depende de todos juntos, o que não corresponde a verdade essencial.

Podemos, então, dizer que se trata do senso comum agindo na sua forma mais pura. O modelo capitalista a um certo momento nos impôs castas sociais e acabou por nos sugerir que sempre houvesse uma ordem superior da qual sempre quereremos, mas nunca poderemos fazer parte: Ela há de ditar as regras da sociedade e suas atitudes comandarão as mudanças, sem as quais seremos sempre os mesmos. O ideal liberal é mesmo devastador e se instala quase que como um Deus do Consumo, que faz toda sociedade tentar caminhar para um momento inalcançável em que todos terão acesso irrestrito a todos os bens, de uma forma ou de outra. Somos talhados desde cedo para acreditar  que os recursos que nos faltam são sempre materiais, nunca, humanos. Além de tudo, outros fatores influenciam, mas o cerne da dogmática discutida aqui é, sem dúvida, o Modelo Econômico que quase se funde ao Modelo Social e o amarre ideológico decorrente da dinâmica da globalização moderna.

Mesmo assim, o que o brasileiro nunca percebe é que se mudarmos esse ambiente com o nosso mínimo esforço pessoal, já estaremos contribuindo para a coletividade e para que o próximo desempenhe o mesmo papel. 

Muito embora teses liberais tenham papel primordial no entendimento de que a humanização precisa de seres sociais em iguais condições de sobrevivência, por outro lado paradoxal, o capitalismo selvagem se alimenta do subjugo pelas minorias. Todavia, há que se perceber que conviver com as diferenças, inclusive as sociais, é extremamente saudável para uma sociedade avançada. O que se discute não é o fim da diferença, mas a ponderação de que ela tem que se manter em níveis tais que permitam aos mais pobres a ascensão social sem demandas inconsequentes. Nesse ponto, a promoção da redistribuição de renda e da oportunidade é primordial para que as sociedades continuem do ponto de vista antropológico, considerando a máxima de que a um ponto tal de discrepância venham a se destruir. Essa condição coletiva inalienável é a própria cama onde se deita a doutrina de Humanizar. 

Por isso mesmo, a diferença social é, a um só tempo, ponto de partida para a evolução humana, tanto quanto é o seu maior empecilho, e no meio dessa confusão conceitual cabe o significado de humanizar.

De modo conclusivo, podemos dizer que a tarefa de humanizar esbarra frequentemente na nossa própria história coletiva e é, por si só, uma ambiguidade intransponível, mas que deve ser uma utopia social saudável, até mesmo por ser a forma mais ampla de cidadania, ou melhor, a única forma de cidadania. Ela soa muito simples, mas nunca se pode dizer que é fácil - aliás, se simples fosse fácil não existiria somente uma versão de “Parabéns pra você”, como muito bem colocou Erasmo Carlos ao defender sua forma simplória de compor canções.

Ser Cidadão é ser Humano e ser Humano é, pura e simplesmente, ser um Gerente de si próprio tanto quanto um operário do ser alheio.